
Divine Therapy começou em um período de bloqueio criativo. A autocrítica, as regras autoimpostas e a preocupação com a aprovação de outras pessoas dificultavam a criação. Antes de uma ideia ganhar forma, já havia uma tentativa de decidir se ela era boa o suficiente, se fazia sentido e se correspondia às referências que orientavam o trabalho.
Esse julgamento antecipado reduzia o espaço para experimentar. Uma possibilidade podia ser descartada antes de ser desenvolvida, porque ainda parecia distante do resultado esperado. Com o tempo, produzir e se satisfazer com o próprio trabalho se tornaram tarefas difíceis.
A questão que deu origem ao projeto foi como mudar essa relação com a criação. Era preciso permitir que uma ideia fosse testada antes de exigir dela uma forma definitiva. Revisar e selecionar continuariam fazendo parte do processo, mas deixariam de interrompê-lo a cada tentativa.
A música continuou presente durante esse período. Ao ouvi-la, surgiam imagens mentais de lugares, situações e personagens. Entre essas imagens, uma figura passou a aparecer com frequência: um hippie excêntrico, desleixado, irreverente e pouco preocupado com convenções.
O interesse por esse personagem vinha da maneira como ele parecia existir. Enquanto criar envolvia dúvida e cobrança, ele agia com intuição e confiança nas próprias escolhas. Havia identificação com essa postura e vontade de experimentar a mesma liberdade.

A figura do hippie se tornou uma forma de reconhecer essa possibilidade. Sua importância está na atitude diante da criação e da própria identidade. A aparência do personagem ajuda a apresentá-la, sem determinar como todas as imagens ou roupas de Divine Therapy precisam ser.
Esse personagem representa uma dimensão do próprio criador. Ao ganhar uma presença na imaginação, esse lado mais intuitivo se tornou mais fácil de observar e explorar. O encontro com ele permitia imaginar escolhas que antes eram limitadas pelo julgamento.
Foi dessa relação que surgiu o terapeuta de Divine Therapy. Na história, ele conduz uma experiência de aproximação com a própria liberdade criativa. A terapia é a linguagem escolhida para representar esse processo: reconhecer as limitações, experimentar outras possibilidades e desenvolver uma relação menos rígida com as próprias ideias.

O personagem também assume os papéis de maestro e diretor. A música acompanha e organiza o ritmo da experiência, enquanto ele pode conduzir as situações e as imagens que pertencem a esse universo. Sua função é abrir possibilidades. Transformá-lo em outro modelo obrigatório repetiria a mesma cobrança que motivou o projeto.
A música participa da estrutura de Divine Therapy desde o início. Foi durante a escuta que o personagem ganhou forma e que aconteceram momentos de imaginação intensa. Ela acompanha a passagem entre o julgamento constante e uma experiência em que era possível seguir as ideias com mais espontaneidade.
O nome flow passou a descrever esses momentos. As decisões pareciam encontrar continuidade, havia mais confiança na intuição e menos necessidade de avaliar cada passo imediatamente. O interesse também estava no tempo passado dentro dessa experiência, mesmo quando ela ainda não produzia um resultado concreto.


A imaginação incluía sonhos, lugares desejados, situações futuras e outras versões de si. Essas imagens permitiam se aproximar de possibilidades que ainda não tinham espaço na vida cotidiana. Era possível experimentar mentalmente uma atitude, um ambiente ou uma forma de se apresentar e perceber o desejo de vivê-los.
Assim, Divine Therapy passou a tratar de mais assuntos do que o bloqueio que lhe deu origem. O projeto se abriu para a identidade, para as aspirações e para a exploração da própria mente. A liberdade desejada também envolvia descobrir o que poderia ser criado ou vivido a partir dali.

A vontade era continuar explorando esse estado. Em vez de mantê-lo apenas como uma experiência interna, surgiu a decisão de dar vida a ele. Divine Therapy ganhou nome, personagem, sala e sessões. As imagens mentais passaram a oferecer matéria para roupas, fotografias, filmes e encontros.
A sala torna essa experiência perceptível como um espaço. Pode reunir música, objetos, memórias e referências pessoais, transformar-se ou se abrir para outras paisagens. Ela permite construir situações e retomá-las em novas criações, sem depender de um cenário único e definitivo.

Materializar o universo também passou a fazer parte da experiência. Uma ideia dá origem a uma criação; depois, essa criação permite voltar à ideia, interpretá-la e desenvolvê-la de outra maneira. As sessões registram esses movimentos e criam oportunidades para continuar a história.
A coleção participa dessa passagem da imaginação para a vida cotidiana. A roupa oferece uma forma de levar as mensagens e as imagens de Divine Therapy para além da sala. Ao ser escolhida e vestida, passa a fazer parte da maneira como cada pessoa se apresenta e se relaciona com esse universo.
A frase “Say goodbye to your old heroes” se liga ao conflito que iniciou o projeto. Os heróis podem ser referências criativas, expectativas ou versões idealizadas de si que acabam determinando quais escolhas parecem aceitáveis. A mensagem propõe rever a autoridade desses modelos sobre a própria criação.

As referências continuam fazendo parte do repertório. O que muda é a dependência de corresponder a elas em cada decisão. A ideia de se despedir das próprias regras segue a mesma direção: perceber quais exigências foram estabelecidas por hábito e quais delas estão impedindo a experimentação.
Esse raciocínio aproxima a coleção das questões de identidade presentes na história. Vestir uma peça pode ser uma escolha de expressão, uma afinidade com uma mensagem ou uma maneira de dar espaço a um aspecto de si. As roupas dividem o arquivo com a música, os filmes e os encontros, que acrescentam outras formas de conhecer a experiência.

Divine Therapy foi pensado como um processo no qual existe vontade de permanecer. A recuperação da espontaneidade deu início ao projeto, e a exploração dos sonhos, da identidade e da imaginação ampliou o que ele poderia se tornar.
Por isso, a história não depende de uma sessão final ou de um momento em que todas as limitações estejam resolvidas. Cada sessão e cada coleção apresenta um recorte. Novos desejos, dúvidas e referências podem mudar o rumo das criações e a maneira de contar essa experiência.
O personagem pode continuar presente, a sala pode se transformar e as escolhas visuais podem mudar. A continuidade está nas questões que motivam o trabalho e na possibilidade de retomá-las. Dar forma a Divine Therapy é uma maneira de continuar explorando a experiência que o originou.
